sábado, 10 de outubro de 2009

mundo que perdes
Porque desesperas com a minha existência?

Bestas da água, emerjam,
Revoltem o mar,
Afogando-me na vossa ânsia;
Destruam-me os navios,
E eu morrerei, naufragado.

Bestas da Terra, insurjam-se,
Galopem no vosso ódio,
E tentem escorraçar-me;
Rasguem e desfiem a minha carne,
Para ao menos os vossos filhos alimentar.

Bestas do Ar, voem,
Algemem-me nas amarras do Destino,
Na tentativa de me sacrificar ao Sol
E servir de testemunha
Do vosso idílico feito.

Mas... Eu sou eu,
E nada mais do que eu...
Sou assim, simplesmente eu.

Sim, sou a vossa infame
Caixa de Pandora.
Sim, sou a vossa tão desejada
Pedra Filosofal.
Eu sou tudo!
E nada...

E tu, Mundo, mostra a tua outra Natureza,
Aquela, destruidora, ávida de sangue,
Para me exterminar,
Para extinguir a minha
Já breve chama.

Sim, vou desaparecendo,
Deste Mundo que já não me quer,
Tal como as bestas dos três elementos,
Enquanto o verdadeiro quarto vai escasseando.

Mas, mundo que fedes,
Porque desesperas com a minha existência,
Se choras ainda mais sem ela?

O quê? Choram agora,
Golfinhos e tubarões?
As vossas lágrimas não se
Descobrem no mar.

O quê? Choram agora,
Cães e tigres?
As vossas lágrimas
Perdem-se nas vossas plantas.

O quê? Choram agora,
Gaivotas e abutres?
As vossas lágrimas
Secam com o Sol.

Agora é que se importam?
Nem tudo o que luz é ouro,
Mas nem tudo o que fede é obsceno.
Ó Mundo, onde vais tu parar?


Ricardo Pereira

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nobel Investments

Em tempos de crise, o mais fundamental é o investimento.
Desta vez, a Fundação Nobel é mais uma investidora neste novo Mundo, surpreendendo quase todos. Barack Obama é o nomeado para o Nobel da Paz. Ainda não fez muito é certo. Mas o apelo pela mudança, a espontaneidade e honestidade das suas acções foram certamente decisivas para este facto. É muito cedo, claro, mas, especulando, terá provavelmente sido para elogiar o seu esforço inicial e para o incentivar a fazer mais pela paz e cooperação internacional.

O que verdadeiramente me fascinou foi outro investimento do dia. Foi o Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, mais conhecido, erradamente, por Nobel da Economia, que este ano foi atribuido, pelo que é dito no blog de Greg Mankiw, a Quintus Pfuffnick. É de imaginar que seja uma personalidade tão importante, quanto o seu nome parece complicado, mas a verdade é muito simples. Quintus Pfuffnick. Estudante do primeiro ano de doutoramento, bastante jovem, sem quase experiência nem grande trabalho científico publicado. Espanto geral. Paul Krugman imagina que o esforço do jovem economista em harmonizar a eficiência com a igualdade seja das principais razões para tamanha distinção, suportada ainda pelo facto de grandes coisas se virem a esperar do rapaz.
Só há uma pergunta a fazer: Terá sido isto para Quintus um turbo ou uma cruz?

Great things are expected .

domingo, 4 de outubro de 2009

Consequências: Aceites

O meu joelho dói, mas não dói. Era uma vez uma feliz e turva Noite dos Horários quando, devido a uma possível tábua mal alinhada e a uns quantos buracos recém-criados no chão visando aposentar-me, no meio de um salto, literalmente lixo o joelho. Ninguém reparou no momento em que eu me lesionei, exceptuando, penso eu, a Paulita do Bar da FEUC e o Góis Fixe, mas aguentei-me. Quiçá o maior estrago tenha sido feito depois. Não quis ir para casa; não ia perder uma Noite dos Horários por causa de um joelho e, por causa disso, passei o resto da noite toda a massacrá-lo. Ainda assim, não me arrependo. O joelho doeu-me nos primeiros dias, e hoje passado quase duas semanas ainda me dói num ou outro movimento, mas dói-me a cada momento do meu dia. Não pretendo ser melodramático ou trágico, mas sinto-me frustrado de não poder andar à vontade pela cidade, como normalmente o faço. Sinto-me frustrado de não poder sair decentemente à noite, por medo de me descuidar no joelho e provocar mais um retrocesso na recuperação. Dói-me a minha actual fraqueza física, mesmo que temporária.

Isto tudo porquê? Porque, no fundo, apesar de me doer, eu não choro por estar aleijado, não estou chateado com o mundo por não poder fazer aquilo que quero, quando quero. Porque aceito. Normalmente é algo que falta às pessoas, a aceitação.

A aceitação das consequências é das coisas mais importantes que deve estar interiorizada no carácter de uma pessoa, medir o custo-benefício do que estamos a fazer. Não é conversa de aspirante a economista, é apenas uma palavra bonita, mas objectiva, do que normalmente faço quando me meto nalguma coisa.

Vamos a exemplos:
Quando uma pessoa está a copiar e é apanhada pelo professor, qual é o motivo para ficar chateada? Não estava a fazer algo lícito e foi apanhada, por isso o que é justo é arcar com as consequências. E, na minha sincera opinião, nem envergonhada deve ficar, afinal de contas, estava a fazer pela vida, e se existe mesmo a vontade de ficar envergonhado, então essa mesma pessoa deve-se envergonhar de não ter conseguido copiar mais discretamente, afinal a verdadeira regra não é "Não se pode copiar", mas "Não se pode ser apanhado a copiar."
Mutatis Mutandis para o excesso de velocidade na estrada.
Nota: Não estou a incentivar o excesso de velocidade, nem algo de semelhante. Neste caso temos de ter em atenção ainda mais a análise, porque para além do nosso futuro podemos estar a implicar o dos outros e isso é bem mais difícil de aceitar.
Passando ao meu caso, porque sim, queridos paizinhos e professores, eu não ando na estrada com excesso de velocidade (excepto quando ando a pé) nem copio, eu aleijei-me no joelho, sabiam?
Mas não culpo ninguém e aceito. Eu sabia que tinha uns joelhos de um velho - o da direita acabou de envelhecer cerca de 10 anos, passando oficialmente para a terceira idade (o da esquerda ainda está em fase de pré-reforma - mas, ainda assim quis ser pandeireta. E quero continuar a sê-lo. Peço desculpa aos restantes, mas não há nada como estar à frente de um palco a sentir os fanáticos a cantarem as nossas músicas, a sentir a vibração deles e, mais que isso, vibrar com eles. Puxar por eles, gritar com eles, cantar com eles. Penso que isto ultrapassa claramente a barreira do custo.
Aliás, mesmo com o joelho assim, a ter de andar por Coimbra com uma muleta, e a não poder voltar a estar como estava durante mais umas, espero que poucas, semanas, mesmo assim, continuo milionário.